Já é realidade para muitos brasileiros: ter que escolher entre pagar a conta de luz ou encher o tanque do carro. Esse é o dilema de milhões enquanto a inflação continua a corroer o poder de compra. Em janeiro, o IPCA subiu 0,16%, acumulando 4,56% em 12 meses – acima da meta do governo (3%) e no limite do teto tolerado (4,5%).
Isso significa que quem ganhava R$ 1.000 ano passado, agora tem um poder de compra equivalente a R$ 954,40. Isso quer dizer que os mesmos produtos e serviços que a pessoa conseguia comprar antes, agora custam mais, exigindo cortes e ajustes no orçamento.
Na prática, esse impacto não é distribuído igualmente. Para quem tem uma renda mais baixa, a inflação pesa mais porque os aumentos de preços costumam ser mais fortes nos itens essenciais, como alimentação, transporte e moradia. O que faz com que, mesmo com discursos de controle, o preço do arroz, da gasolina e do aluguel continue subindo? A resposta passa por decisões políticas, estratégias empresariais e hábitos de consumo que alimentam esse ciclo vicioso.
O governo, que deveria garantir um equilíbrio nas contas públicas, enfrenta uma dívida federal projetada para crescer mais de 16%, podendo chegar a R$ 8,5 trilhões em 2025. Para tentar conter o impacto da inflação, o Banco Central aumentou a Selic para 13,25%, com previsão de novos reajustes em março.
Na prática, isso significa crédito mais caro para empresas e famílias, tornando financiamentos e empréstimos um peso ainda maior no orçamento. É uma estratégia conhecida: conter a inflação com juros altos, mas ao custo de travar o crescimento e penalizar quem depende do crédito para manter o próprio negócio ou até mesmo pagar contas do dia a dia. Fica claro quem paga a conta, os mais vulneráveis que não consomem mais como antes.
Por outro lado, vimos rápidos ajustes para o consumidor. O setor de combustíveis, por exemplo, na onda do reajuste da Petrobras em janeiro, elevou o preço do diesel para R$ 3,72/litro, mesmo sem grandes variações no preço do barril de petróleo no mercado internacional. Essa rapidez no repasse de custos ao consumidor levanta questionamentos. Com poucas empresas dominando o refino e a distribuição, o consumidor pode ficar refém de preços altos sem muitas alternativas.
O impacto da inflação, no entanto, não recai apenas sobre as grandes decisões do governo ou as estratégias das empresas. O comportamento dos consumidores também contribui para esse cenário. Atualmente, 72 milhões de brasileiros estão inadimplentes, e grande parte desse endividamento vem do uso descontrolado do crédito. Os juros do rotativo do cartão de crédito chegam a 430% ao ano, tornando qualquer dívida um problema de longo prazo. Além disso, muitas pessoas ainda parcelam compras básicas, sem um planejamento financeiro adequado. Apenas 25% dos brasileiros fazem controle mensal de seus gastos, o que mostra como a falta de educação financeira contribui para a bola de neve do endividamento.
Se olharmos para os desafios estruturais do país, fica evidente que a inflação não é apenas um problema momentâneo. O Brasil continua atrasado em produtividade quando comparado a outros países da América Latina. Um trabalhador brasileiro produz 30% menos do que a média regional, enquanto países como Chile e Colômbia avançam com investimentos em tecnologia e inovação. Além disso, 50% das exportações brasileiras ainda são commodities, o que significa que nossa economia é extremamente dependente de fatores externos, como a demanda chinesa e a variação dos preços agrícolas.
Diante desse cenário, o que pode ser feito? O governo precisa priorizar cortes de gastos desnecessários e acelerar reformas que promovam maior eficiência econômica, em vez de apenas aumentar tributos. As empresas devem buscar mais transparência na formação de preços e investir em inovação para reduzir custos sem repassar tudo para o consumidor. Já a população precisa desenvolver hábitos financeiros mais saudáveis, poupando mais, evitando o crédito abusivo e pressionando por políticas públicas que promovam maior estabilidade de preços.
A inflação não é um fenômeno natural, mas sim um reflexo de escolhas econômicas e políticas. Enquanto o Congresso debate medidas e o Banco Central segue elevando juros, o peso real recai sobre quem ganha R$ 1.500 por mês e vê o arroz subir R$ 2 de uma semana para outra. A pergunta que fica é: até quando vamos aceitar que o aumento dos preços seja tratado como um imposto invisível sobre os mais pobres? O combate à inflação exige ação e transparência. Cobre seus representantes, planeje melhor suas finanças e não aceite aumentos injustificados sem questionar.
O planejamento nunca foi tão importante para sua vida financeira pois em tempos de aumento dos preços é preciso disciplina e criatividade para ter mais acesso e dignidade, afinal como cantam os Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.
Por: Diogo Angioleti, especialista em finanças e comportamento do Sistema Ailos